Maria não chora
Suas entranhas não gritam mais
Apenas olha, olhando
Morre por muito enxergar
O óbvio que ninguém vê
A segregação do indivisível
A soma de suas células
Intransigentes, intranscritíveis!
O molde eterno de uma breve vida
O tão pouco da nossa inexistência
Finda por
Números, e cores, e imagens bonitas
Tantos idiotas, no mesmo espaço
No mesmo tempo
E a tudo se diz amém.
Uma representação numérica
Valores em calamidade pública
A nossa história
A estatística acusatória
Dessa moral
Relativa, provisória
Mas Maria, tu vives no agora
Na sub-humanidade,
No desgoverno de si e do que lhe roda
Mas só ouça, mas que bonita!
O som da gota, lá fora
Tudo muda, muda forma
Constitui, essência
deforma
Mas semente não vira beija-flor
O beijo nunca durou, hoje não dura
O amor, a paz, a incessante busca
Por um remédio,
E uma possível cura
De tanto penar
Por um remédio,
E uma possível cura
De tanto penar
Mas vamos, há tanta vida
Corte pelo cálice essa burguesa e emergente dor
Separa sépala, viva pétala
Que morre sempre, e é sempre viva.
Lindo!!
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