quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Doce ferida


Teu fragmento não cala o que és
Consinto a morte
Heterogêneo sinônimo da vida
Como quem ao madrugar
Em longínqua e cotidiana espera, aguarda
A reconstrução de seu novo rei,
Como me esquento, e à ti coexisto
E em ti, cinzas eu sou.
Minhas entranhas remoídas
Acinzentadas
Pobres! Tão caladas
Injúrias mil diriam
Se algum dia possuíssem voz
Analfabetas inócuas
Negariam várias dessas quase juras
Penetrariam essa cicatriz ferida
Não se deteriam nem à morte
Nem a vida.
E como alguém que
Em um susto nasce
Seriam gritaria mal contida
Doce cicatriz ferida.


quarta-feira, 10 de outubro de 2012


''Conserva sempre o espanto nos olhos. Vive como se fosses morrer dentro de dez segundos. Olha o mundo. Ele é mil vezes mais extraordinário do que todos os sonhos que se podem fabricar em série nas fábricas.'' Fahrenheit 451

terça-feira, 2 de outubro de 2012



Maria não chora
Suas entranhas não gritam mais
Apenas olha, olhando
 Morre por muito enxergar
O óbvio que ninguém vê
A segregação do indivisível
A soma de suas células
Intransigentes, intranscritíveis!
O molde eterno de uma breve vida
O tão pouco da nossa inexistência
Finda por
Números, e cores, e imagens bonitas
Tantos idiotas, no mesmo espaço
No mesmo tempo
E a tudo se diz amém.
Uma representação numérica
Valores em calamidade pública
A nossa história
A estatística acusatória
Dessa moral
Relativa, provisória
Mas Maria, tu vives no agora
Na sub-humanidade,
No desgoverno de si e do que lhe roda
Mas só ouça, mas que bonita!
O som da gota, lá fora
Tudo muda, muda forma
 Constitui, essência deforma
Mas semente não vira beija-flor
O beijo nunca durou, hoje não dura
O amor, a paz, a incessante busca
Por um remédio, 
E uma possível cura
De tanto penar
Mas vamos, há tanta vida
Corte pelo cálice essa burguesa e emergente dor
Separa sépala, viva pétala
Que morre sempre, e é sempre viva.