sexta-feira, 8 de abril de 2016


O brilho dos teus olhos faz chacota a esse mundo uniforme, enquanto isso, o elevador
faz sinal de que desce.
A moça quer subir (quem quer, afinal, ficar para trás, para baixo, mais ao fundo?) mas entra mesmo assim, pois, embaraçada, diz: tudo que sobe, desce.
Mas nem tudo, não na cidade de chico science onde quem sobe já está em cima, e quem desce, desce a vida inteira.

Elevadores fogem à lógica urbana, social, são subversivas máquinas onde oprimidos, todos nós transitamos para cima e para baixo, um toque decide o seu destino.
Sobe-desce, desce-sobe.

O quão desconfortável é entrar nessa caixinha e se deparar com tantos olhares embaraçados, tantos não-olhares, dentro dela o raro é o não desviar dos olhos, é escolher enxergar a dureza por trás de expressões esvaziadas pelo medo do desconhecido, do torto, do errado, do louco.
Tanta palavra invisível nesse vai-e-vem do cotidiano, dentro dos prédios mesmo que uniformes,
dentro dos dias mesmo que cinzas, dentro das pessoas todas iguais, igualmente oprimidas, dentro delas sempre existe a latência de uma explosão, o desejo envergonhado da rebeldia, o sangue vermelho dentro das veias. Se olhares de perto, para trás, mais abaixo e mais ao fundo.